sábado, 24 de setembro de 2011

Séries C e D e o "legado" da Copa 2014


Durante essa semana um dos principais assuntos do futebol brasileiro foi o estado de abandono em que se encontram as divisões de acesso do futebol nacional. Motivadas por um semi-escândalo envolvendo suspeitas de manipulação de resultados na série C para evitar o rebaixamento do Fortaleza, uma série de colunas, matérias e reportagens se seguiu, mostrando como a CBF pouco faz pelas séries C e D do Campeonato Brasileiro, privilegiando a A e a B e principalmente seu time de camisa amarela.

Carlinhos Bala: "Só mais um" (Foto: O POVO)
Me chamou particularmente a atenção uma matéria no site da Gazeta Esportiva (veja aqui), com uma declaração do presidente Luiz Omar Pinheiro, do Paysandu-PA, que joga a série C, a respeito da despesa que os clubes dessa divisão têm a mais que os clubes das séries A e B:

“Estamos aqui, no Norte, ‘fumados’, a pão e água. Gastamos R$ 60 mil para jogar em Rio Branco-AC. Não recebemos nem uma bola. Ninguém ajuda. Com passagens aéreas e hospedagens, a Série C não custa nem R$ 5 milhões e dizem que não têm dinheiro para ajudar. Isso é desumanidade. O futebol forte não pode ser só o das Séries A e B”.

Vale lembrar que clubes das duas divisões de elite do Brasil recebem 23 passagens aéreas da CBF para jogar cada partida fora de casa. E que a disputa das séries C e D, apesar de nacional, é regionalizada nas primeiras fases justamente para tentar cortar custos.

O texto todo vale a pena ser lido. Outra informação interessante é a de que o clube do Remo, que está em situação semelhante ao rival paraense, fará uma homenagem a Ricardo Teixeira na partida entre Brasil e Argentina no dia 27 de setembro, para tentar passar um pano numa dívida milionária que tem com a confederação.

Para uma entidade que lucra R$83 milhões por ano, investir R$5 mi na Série C, que em teoria, abriga do 41º ao 60º melhor time do auto-proclamado "país do futebol", seria fácil, porém não é feito porque não tem retorno. Seria simplesmente um investimento no esporte. Porém, sabemos bem, a CBF não tem interesse nenhum em futebol como esporte ou meio de educação e inclusão social. Leia aqui a matéria da Folha de março deste ano, com destaque para a frase: “o futebol contribui para a desinformação do povo, já de si mal aparelhado intelectualmente”.

Seleção Brasileira jogando todo mês e a Copa do Mundo 2014 mostram mais uma vez como o futebol está deixando de se tornar uma expressão popular para se transformar em uma máquina de fazer dinheiro, nem sempre limpo.

O que é interessante é que, apesar de não ter os R$5 milhões que evitariam que os clubes quebrassem, na hora construir estádios para o Mundial e levantar a bandeira do "legado", o dinheiro, muitas vezes público, flui que é uma beleza.

O tema mais batido a respeito da Copa é o lucro fácil que virá para incorporadores, construtores, lobistas e toda sorte de profissional que se meter em construções de estádios. Vamos fazer um estudo sobre os 12 estádios da Copa-2014 e ver qual será o tamanho deste legado.

Ou seja, em um país cujo futebol tem quatro divisões nacionais que totalizam 100 clubes, vamos ver o que fica em cada cidade para depois, ou, qual a torcida que vai aproveitar as centenas de milhões investidos.

Todos os valores mencionados na construção dos estádios do Mundial foram tirados do Portal da Copa.

Belo Horizonte – Mineirão – R$684 milhões

Atlético e Cruzeiro, Série A

Os trabalhadores fizeram greve na semana passada, na véspera do evento de mil dias para a copa. O estádio é e sempre foi a casa do Cruzeiro e do Atlético, times normalmente de série A. O América, mais simpático à serie B, não costuma jogar ali, até porque sua média de público é vergonhosa. Está longe de vir a ser um elefante branco, mas o preço é salgadíssimo.

Brasília – Mané Garrincha – R$671 milhões

Brasiliense, Série C

Hoje em dia os R$55 milhões gastos no Bezerrão, no Gama, em 2008, parecem módicos perto das cifras da Copa. Mas na época o estádio, que foi utilizado apenas duas vezes em jogos importantes, foi bem criticado. Serviu para a Seleção aplicar 6-2 em Portugal em partida amistosa, e foi palco de Goiás x São Paulo, última partida dos paulistas pelo Campeonato Brasileiro daquele ano, e que valeu o título depois da vitória pelo placar mínimo. Depois, Série C, e com o rebaixamento do Gama em 2010, Série D. Com o Mané não será diferente: o Brasiliense é o time melhor colocado do estado, na terceira divisão. Os dois clubes do DF que jogam a Série D mandam seus jogos fora da capital federal – além do Gama, temos o Formosa, da cidade goiana de mesmo nome, mas filiado à federação do DF.

Arruda e Teixeira, uma combinação polêmica
Cuiabá – Verdão – R$596 milhões

Cuiabá, Série D

Em um estado sem nenhuma tradição no futebol, o melhor time é o Luverdense, de Lucas do Rio Verde, que joga a Série C. Na D, o Vila Aurora, de Rondonópolis, e o glorioso Cuiabá Esporte Clube, fundado em 2001 pelo ex-atacante Gaúcho, que jogou no Flamengo e Palmeiras entre os anos 1980 e 1990. O time verde terá à disposição o estádio para 43.600 espectadores, enquanto atualmente manda seus jogos no pequeno Dutrinha, que comporta sete mil pessoas.

Curitiba – Arena da Baixada – R$220 milhões

Atlético, Série A

Durante muito tempo o Atlético Paranaense teve o melhor “meio estádio” do Brasil, já que sua moderna estrutura em uma lateral contrastava com nada mais que um gigantesco muro de concreto na outra. É o estádio com o menor orçamento para a Copa, e, por mais que o Furacão flerte perigosamente com a Série B há alguns anos, também tem a utilização garantida.

Fortaleza – Castelão – R$486 milhões

Ceará, Série A, e Fortaleza, Série C

É a casa do Ceará e do Fortaleza, dois times que tem muita tradição local, mas, a bem da verdade, pouca expressão no cenário nacional. O Ceará varia entre as duas primeiras divisões, enquanto o Fortaleza acaba de evitar, na última hora e cercado de polêmicas, uma queda para a quarta. Mesmo assim, o estádio deverá ser bastante utilizado, dependendo do desempenho dos dois clubes nos campeonatos que disputarem.

Manaus – Vivaldão – R$533 milhões

Nacional, Série D

Os dois representantes do estado na Série D são o Nacional e o Peñarol, exatamente como se estivéssemos em Montevidéu. A diferença é que o Peñarol, atual bicampeão estadual, é da cidade de Itacoatiara, a 270 km da capital. A Arena de meio bilhão de reais e 44.310 lugares servirá apenas ao Nacional, que já terminou sua participação na Série D de 2011.

Natal – Estádio das Dunas – R$400 milhões

América, Série C

O clube em melhor situação no estado está na Série B e é o ABC, que é dono do Frasqueirão, inaugurado em 2006 com capacidade para 18 mil pessoas. O outro time tradicional da região, o América, é quem mandava suas partidas no Machadão, demolido para dar lugar ao novo estádio que atenderá às exigências da Fifa. Na Série C, o Dragão poderá levar até 42 mil torcedores para prestigiá-lo, a mesma capacidade do estádio antigo.

Porto Alegre – Beira-Rio – R$290 milhões

Internacional, Série A

Estádio privado, tem o menor custo por assento da Copa: 60 mil torcedores terão sua cadeira ao preço de R$4.830 cada. O Inter é de tradições continentais e nunca teve problemas para encher seu estádio, mas não custa perceber que o preço dessa reforma é quase a mesma coisa que a Juventus de Turim acaba de gastar para construir o seu novo estádio, que substituiu o demolido Delle Alpi.

Recife – Arena Pernambuco – R$494 milhões

Aceitamos sugestões

Na minha humilde opinião, o estádio mais indecente da Copa. O nome sem criatividade retorna, e obviamente motivado pelo fato do estádio não ter relação nenhuma com absolutamente nada. Fica em São Lourenço da Mata, a 19 km de Recife, e não vai servir de casa nem para Sport e Náutico, na Série B, nem para o Santa Cruz na D, que tem como seu colega Pernambucano o Porto de Caruaru. E vai comer quase meio bilhão de reais para virar o elefante branco em todos os aspectos possíveis, já que a Ilha do Retiro, os Aflitos e o Arruda continuarão abrigando as partidas de suas tradicionalíssimas equipes mandantes. Também na Série B temos o Salgueiro, da cidade homônima a 500 km de Recife.

Rio de Janeiro – Maracanã – R$860 milhões

Flamengo e Fluminense, Série A

A obra mais cara da Copa é para reformar um estádio que já existe, o ex-maior do mundo. Sem dúvida é um estádio belíssimo, imponente e o mais tradicional do país. As matérias sobre as greves de trabalhadores e estimativas superiores a um bilhão de reais nos custos estão por toda a imprensa. Vasco e Botafogo não vão utilizar, pois têm São Januário e o Engenhão, outro estádio polêmico que custou R$380 milhões aos cofres públicos à época do Pan 2007.

Greve no Maracanã. (Foto: Globoesporte.com)

Salvador – Fonte Nova – R$592 milhões

Bahia, Série A

Em novembro de 2007, um acidente no estádio deixou sete mortos e dezenas de feridos, quando o Bahia subia da Série C para a B do futebol brasileiro. Desde 2009, o clube manda suas partidas no Pituaçu, estádio municipal. Serão 65 mil assentos para a torcida tricolor sofrer com seu time que joga praticamente uma divisão diferente a cada ano.

São Paulo – Itaquerão – R$820 milhões

Corinthians, Série A

O “Isentão” ou “Indecentão” é outro largamente divulgado na imprensa. Eu, como corintiano, lamento que o Pacaembu, que é há décadas a casa do Timão e o estádio mais aconchegante da cidade, passe a não ser mais utilizado. Os defensores dizem que quase um bilhão enterrado em um estádio é o que vai desenvolver a zona leste da capital paulista. Não consigo ver a lógica disso, mas ok, que façam bom proveito, afinal estamos todos pagando.

Em média, cada assento em um estádio “de Copa” custará R$9.550. Os dois estádios que serão de Série D (Manaus e Cuiabá) são proporcionalmente os mais caros: 12 mil e 13,7 mil de média, respectivamente.

A conta final é: R$6,6 bilhões, ou o PIB do Haiti, apenas em estádios de futebol, sem contar as fantásticas obras de infra-estrutura. Além disso, para o “legado” ser aproveitado pelo torcedor brasileiro, há gente defendendo que eles sejam reformados novamente após a Copa, para evitar a violência. Afinal, o torcedor brasileiro nada mais é do que um animal que pagará para que se construa estádios para que os torcedores estrangeiros visitem o Brasil. Assino embaixo tudo que esta coluna da Trivela coloca.

A Copa é deles, a conta é nossa. E sobre o Fortaleza na série C, não se fala mais nisso.

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