Durante essa semana um dos principais assuntos do futebol
brasileiro foi o estado de abandono em que se encontram as divisões de acesso do
futebol nacional. Motivadas por um semi-escândalo envolvendo suspeitas de
manipulação de resultados na série C para evitar o rebaixamento do Fortaleza,
uma série de colunas, matérias e reportagens se seguiu, mostrando como a CBF
pouco faz pelas séries C e D do Campeonato Brasileiro, privilegiando a A e a B
e principalmente seu time de camisa amarela.
| Carlinhos Bala: "Só mais um" (Foto: O POVO) |
Me chamou particularmente a atenção uma matéria no site da
Gazeta Esportiva (veja aqui), com uma declaração do presidente Luiz Omar
Pinheiro, do Paysandu-PA, que joga a série C, a respeito da despesa que os
clubes dessa divisão têm a mais que os clubes das séries A e B:
“Estamos aqui, no Norte, ‘fumados’, a pão e água. Gastamos
R$ 60 mil para jogar em Rio Branco-AC. Não recebemos nem uma bola. Ninguém
ajuda. Com passagens aéreas e hospedagens, a Série C não custa nem R$ 5 milhões
e dizem que não têm dinheiro para ajudar. Isso é desumanidade. O futebol forte
não pode ser só o das Séries A e B”.
Vale lembrar que clubes das duas divisões de elite do Brasil
recebem 23 passagens aéreas da CBF para jogar cada partida fora de casa. E que
a disputa das séries C e D, apesar de nacional, é regionalizada nas primeiras
fases justamente para tentar cortar custos.
O texto todo vale a pena ser lido. Outra informação
interessante é a de que o clube do Remo, que está em situação semelhante ao
rival paraense, fará uma homenagem a Ricardo Teixeira na partida entre Brasil e
Argentina no dia 27 de setembro, para tentar passar um pano numa dívida
milionária que tem com a confederação.
Para uma entidade que lucra R$83 milhões por ano, investir R$5 mi na Série C, que em teoria, abriga do 41º ao 60º melhor time do auto-proclamado "país do futebol", seria fácil, porém não é feito porque não tem retorno. Seria simplesmente um investimento no esporte. Porém, sabemos bem, a CBF não tem interesse nenhum em futebol como
esporte ou meio de educação e inclusão social. Leia aqui a matéria da Folha de março
deste ano, com destaque para a frase: “o futebol contribui para a desinformação
do povo, já de si mal aparelhado intelectualmente”.
Seleção Brasileira jogando todo mês e a Copa do Mundo 2014
mostram mais uma vez como o futebol está deixando de se tornar uma expressão
popular para se transformar em uma máquina de fazer dinheiro, nem sempre limpo.
O que é interessante é que, apesar de não ter os R$5 milhões que evitariam que os clubes quebrassem, na hora construir estádios para o Mundial e levantar a bandeira do "legado", o dinheiro, muitas vezes público, flui que é uma beleza.
O tema mais batido a respeito da Copa é o lucro fácil que
virá para incorporadores, construtores, lobistas e toda sorte de profissional
que se meter em construções de estádios. Vamos fazer um estudo sobre os 12 estádios da
Copa-2014 e ver qual será o tamanho deste legado.
Ou seja, em um país cujo futebol tem quatro divisões nacionais que totalizam 100 clubes, vamos ver o que fica em cada cidade para depois, ou, qual a torcida que vai aproveitar as centenas de milhões investidos.
Ou seja, em um país cujo futebol tem quatro divisões nacionais que totalizam 100 clubes, vamos ver o que fica em cada cidade para depois, ou, qual a torcida que vai aproveitar as centenas de milhões investidos.
Todos os valores mencionados na construção dos estádios do
Mundial foram tirados do Portal da Copa.
Belo Horizonte – Mineirão – R$684
milhões
Atlético e Cruzeiro, Série A
Os trabalhadores fizeram greve na
semana passada, na véspera do evento de mil dias para a copa. O estádio é e
sempre foi a casa do Cruzeiro e do Atlético, times normalmente de série A. O
América, mais simpático à serie B, não costuma jogar ali, até porque sua média
de público é vergonhosa. Está longe de vir a ser um elefante branco, mas o
preço é salgadíssimo.
Brasília – Mané Garrincha – R$671
milhões
Brasiliense, Série C
Hoje em dia os R$55 milhões gastos no
Bezerrão, no Gama, em 2008, parecem módicos perto das cifras da Copa. Mas na
época o estádio, que foi utilizado apenas duas vezes em jogos importantes, foi
bem criticado. Serviu para a Seleção aplicar 6-2 em Portugal em partida
amistosa, e foi palco de Goiás x São Paulo, última partida dos paulistas pelo
Campeonato Brasileiro daquele ano, e que valeu o título depois da vitória pelo placar mínimo.
Depois, Série C, e com o rebaixamento do Gama em 2010, Série D. Com o Mané não
será diferente: o Brasiliense é o time melhor colocado do estado, na terceira
divisão. Os dois clubes do DF que jogam a Série D mandam seus jogos fora da
capital federal – além do Gama, temos o Formosa, da cidade goiana de mesmo
nome, mas filiado à federação do DF.
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| Arruda e Teixeira, uma combinação polêmica |
Cuiabá – Verdão – R$596 milhões
Cuiabá, Série D
Em um estado sem nenhuma tradição no futebol, o melhor time
é o Luverdense, de Lucas do Rio Verde, que joga a Série C. Na D, o Vila Aurora,
de Rondonópolis, e o glorioso Cuiabá Esporte Clube, fundado em 2001 pelo
ex-atacante Gaúcho, que jogou no Flamengo e Palmeiras entre os anos 1980 e
1990. O time verde terá à disposição o estádio para 43.600 espectadores,
enquanto atualmente manda seus jogos no pequeno Dutrinha, que comporta sete mil
pessoas.
Curitiba – Arena da Baixada – R$220 milhões
Atlético, Série A
Durante muito tempo o Atlético Paranaense teve o melhor “meio
estádio” do Brasil, já que sua moderna estrutura em uma lateral contrastava com
nada mais que um gigantesco muro de concreto na outra. É o estádio com o menor
orçamento para a Copa, e, por mais que o Furacão flerte perigosamente com a
Série B há alguns anos, também tem a utilização garantida.
Fortaleza – Castelão – R$486 milhões
Ceará, Série A, e Fortaleza, Série C
É a casa do Ceará e do Fortaleza, dois times que tem muita
tradição local, mas, a bem da verdade, pouca expressão no cenário nacional. O
Ceará varia entre as duas primeiras divisões, enquanto o Fortaleza acaba de
evitar, na última hora e cercado de polêmicas, uma queda para a quarta. Mesmo
assim, o estádio deverá ser bastante utilizado, dependendo do desempenho dos
dois clubes nos campeonatos que disputarem.
Manaus – Vivaldão – R$533 milhões
Nacional, Série D
Os dois representantes do estado na Série D são o Nacional e
o Peñarol, exatamente como se estivéssemos em Montevidéu. A diferença é que o
Peñarol, atual bicampeão estadual, é da cidade de Itacoatiara, a 270 km da
capital. A Arena de meio bilhão de reais e 44.310 lugares servirá apenas ao
Nacional, que já terminou sua participação na Série D de 2011.
Natal – Estádio das Dunas – R$400 milhões
América, Série C
O clube em melhor situação no estado está na Série B e é o ABC, que é dono do
Frasqueirão, inaugurado em 2006 com capacidade para 18 mil pessoas. O outro
time tradicional da região, o América, é quem mandava suas partidas no
Machadão, demolido para dar lugar ao novo estádio que atenderá às exigências da
Fifa. Na Série C, o Dragão poderá levar até 42 mil torcedores para prestigiá-lo,
a mesma capacidade do estádio antigo.
Porto Alegre – Beira-Rio – R$290 milhões
Internacional, Série A
Estádio privado, tem o menor custo por assento da Copa: 60
mil torcedores terão sua cadeira ao preço de R$4.830 cada. O Inter é de
tradições continentais e nunca teve problemas para encher seu estádio, mas não
custa perceber que o preço dessa reforma é quase a mesma coisa que a Juventus
de Turim acaba de gastar para construir o seu novo estádio, que substituiu o demolido Delle Alpi.
Recife – Arena Pernambuco – R$494 milhões
Aceitamos sugestões
Na minha humilde opinião, o estádio mais indecente da Copa.
O nome sem criatividade retorna, e obviamente motivado pelo fato do estádio não
ter relação nenhuma com absolutamente nada. Fica em São Lourenço da Mata, a 19 km
de Recife, e não vai servir de casa nem para Sport e Náutico, na Série B, nem
para o Santa Cruz na D, que tem como seu colega Pernambucano o Porto de
Caruaru. E vai comer quase meio bilhão de reais para virar o elefante branco em
todos os aspectos possíveis, já que a Ilha do Retiro, os Aflitos e o Arruda
continuarão abrigando as partidas de suas tradicionalíssimas equipes mandantes.
Também na Série B temos o Salgueiro, da cidade homônima a 500 km de Recife.
Rio de Janeiro – Maracanã – R$860 milhões
Flamengo e Fluminense, Série A
A obra mais cara da Copa é para reformar um estádio que já
existe, o ex-maior do mundo. Sem dúvida é um estádio belíssimo, imponente e o
mais tradicional do país. As matérias sobre as greves de trabalhadores e
estimativas superiores a um bilhão de reais nos custos estão por toda a
imprensa. Vasco e Botafogo não vão utilizar, pois têm São Januário e o
Engenhão, outro estádio polêmico que custou R$380 milhões aos cofres públicos à
época do Pan 2007.
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| Greve no Maracanã. (Foto: Globoesporte.com) |
Salvador – Fonte Nova – R$592 milhões
Bahia, Série A
Em novembro de 2007, um acidente no estádio deixou sete
mortos e dezenas de feridos, quando o Bahia subia da Série C para a B do futebol
brasileiro. Desde 2009, o clube manda suas partidas no Pituaçu, estádio
municipal. Serão 65 mil assentos para a torcida tricolor sofrer com seu time
que joga praticamente uma divisão diferente a cada ano.
São Paulo – Itaquerão – R$820 milhões
Corinthians, Série A
O “Isentão” ou “Indecentão” é outro largamente divulgado na
imprensa. Eu, como corintiano, lamento que o Pacaembu, que é há décadas a casa
do Timão e o estádio mais aconchegante da cidade, passe a não ser mais
utilizado. Os defensores dizem que quase um bilhão enterrado em um estádio é o
que vai desenvolver a zona leste da capital paulista. Não consigo ver a lógica
disso, mas ok, que façam bom proveito, afinal estamos todos pagando.
Em média, cada assento em um estádio “de Copa” custará
R$9.550. Os dois estádios que serão de Série D (Manaus e Cuiabá) são
proporcionalmente os mais caros: 12 mil e 13,7 mil de média, respectivamente.
A conta final é: R$6,6 bilhões, ou o PIB do Haiti,
apenas em estádios de futebol, sem contar as fantásticas obras de
infra-estrutura. Além disso, para o “legado” ser aproveitado pelo torcedor
brasileiro, há gente defendendo que eles sejam reformados novamente após a Copa,
para evitar a violência. Afinal, o torcedor brasileiro nada mais é do que um
animal que pagará para que se construa estádios para que os torcedores
estrangeiros visitem o Brasil. Assino embaixo tudo que esta coluna da Trivela
coloca.
A Copa é deles, a conta é nossa. E sobre o Fortaleza na
série C, não se fala mais nisso.


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