Hoje tivemos pela Premiership, a segunda divisão da Inglaterra, aquele que é conhecido como o clássico das torcidas mais violentas do futebol do Reino Unido, Millwall x West Ham United.
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| Fonte: Millwall FC |
O policiamento era ostensivo, as cercanias do estádio já estavam preparadas para todo tipo de confusão, e não houve nem transmissão de TV do evento.
Em 2005, o filme Hooligans, com nomes conhecidos como Elijah Wood e Claire Forlani no elenco, retratou o dia-a-dia de um grupo de torcedores que incorporam tudo que imaginamos de um hooligan: sujeitos da classe trabalhadora prontos para a briga, especialmente em dias de jogos, e contra torcedores rivais. No fundo, o futebol em si pouco importa, desde que exista muita ação fora do campo. Os torcedores retratados são justamente do West Ham, e os rivais do Millwall são os responsáveis pelos momentos mais quentes do longa-metragem.
O filme não chegou a ser um grande sucesso, mas até ganhou certo destaque e chamou a atenção para aqueles que não conheciam o clássico do sudeste de Londres (sim, sudeste, apesar de ser West, e não East Ham).
A questão dos poucos encontros entre as duas equipes também aparece no filme, quando os torcedores rivais escutam no rádio atentamente ao sorteio da FA Cup, esperando que exista finalmente uma chance de reencontrar o adversário. Isso se explica porque, apesar de origens similares (ambos foram fundados por grupos de estivadores rivais no século XIX), a trajetória dos dois clubes ao longo de 115 anos de rivalidade foi muito distinta.
O West Ham é uma equipe mais tradicional, apesar de ter menos vitórias nos confrontos com os rivais (33x38, mais 27 empates com o de hoje). Ganhou a FA Cup em três oportunidades (1964, 1975 e 1980), além de ter dois vice-campeonatos. Nunca venceu a liga principal, mas foi terceiro colocado em 1986, e sempre foi freqüentador muito mais assíduo da Premier League. Revelou diversos talentos recentes do futebol inglês, como Frank Lampard, Michael Carrick e Joe Cole, entre outros. Foi rebaixado agora, na temporada 2010-2011. É um dos clubes com tradição mais ligada aos torcedores organizados nos anos 70-80, incrivelmente notabilizado por brigas dentro de sua própria torcida e pela The Mile End Mob, uma das organizadas mais antigas do mundo.
Ficou conhecido no Brasil em 2006, depois de uma transferência repentina de Carlos Tevez, que jogava no Corinthians e era apadrinhado pelo misterioso Kia Joorabchian, para o time de Londres.
Já o Millwall é ranqueado pela federação inglesa como apenas o 40º melhor clube do país. Seu melhor resultado na liga nacional foi a 10ª colocação em 1989, e em copas, seu melhor resultado foi vice-campão da FA Cup,em 2004. Sempre ficou muito mais entre a segunda e terceira divisão, e seus melhores anos no aspecto esportivo, a década de 80, ficaram muito menos conhecidos do que seus torcedores hooligans, que têm como mote “no one likes us, we don’t care”.Em março de 1985, uma partida do Millwall pela FA Cup contra o Luton Town, com diversas invasões de campo e brigas nas cercanias do estádio, foi um dos muitos eventos naquela década que culminaram com a intervenção do governo e da polícia no futebol, a identificação obrigatória do torcedor para comprar ingresso, a reforma de diversos estádios e finalmente criação da Premier League, em 1992, na tentativa de eliminar o hooliganismo. De lá para cá, apesar de um ou outro evento isolado, o futebol é relativamente pacífico e até perigosamente elitizado, o que é o grande mote do movimento Against Modern Football (mas isso é outra história).
O outro evento que ajudou a aumentar a tensão para hoje foi a última partida entre os dois clubes, pela Copa da Liga, em 25 de agosto de 2009, em Upton Park, casa do West Ham. Depois de quatro anos sem confrontos entre as duas equipes, a partida terminou com vitória dos mandantes por 3-1, na prorrogação, ofuscada por três invasões de campo generalizadas, brigas dentro e fora do estádio e um torcedor do Millwall esfaqueado no peito. Torcedores que violaram o “banimento” de seu direito de ir ao estádio, pubs depredados, policiais feridos, 19 prisões e tudo que a Inglaterra gostaria de mostrar que não existe mais, estava lá. E, para hoje, os torcedores do Millwall não estavam dispostos deixar barato.
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| Invasão de campo na Carling Cup 2009 |
O clima de vingança era exatamente o que a polícia queria evitar hoje no The Den, estádio do Millwall. Um esquema especial foi montado, equipamentos mais fortes foram levados, e a torcida visitante ficou completamente isolada dos rivais.
A não-transmissão televisiva foi outro fator que fez chamar a atenção para o evento, já que a Championship, mesmo sendo a segunda divisão, é transmitida para diversos países do mundo, Brasil inclusive, e esse era o jogo mais aguardado do fim de semana, por tudo que envolvia o encontro. Hoje em dia na Europa nem se filma mais o torcedor que invade o campo, para não dar fama ao cidadão, então uma possível invasão generalizada seria tratada da mesma forma. Porém, não fazer a transmissão é algo que vai além disso, até porque, em caso de confusão, o material seria notícia, e, por que não, poderia ajudar a polícia. Porém, nesse mundo de futebol-negócio, em que a Inglaterra ganhou a imagem de país que “venceu a violência” no esporte, seria uma forma de evitar uma mancha em seu produto, já que a falta de imagens minimizaria os eventos, caso eles ocorressem.
Os fortes gritos das torcidas, segundo os relatos publicados na imprensa inglesa, foram ouvidos durante toda a partida, como de costume, mas não animaram muito os atletas, que não conseguiram sair do 0-0. Até agora (escrevo mais ou menos três horas depois do fim do jogo), também não houve notícia de confrontos pós-jogo.
O próximo encontro acontecerá no dia 4 de fevereiro de 2012, novamente em Upton Park. E, se os Hammers não subirem nem o Millwall cair (ambas possibilidades concretas), na temporada 2012-2013 teremos mais dois encontros, voltando o clássico a ter uma freqüência que não se via desde o início do século XX.


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