segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Futebol é isso!


Ontem aconteceu pelo Campeonato Italiano o Derby de Roma, Lazio 2-1 Roma, com direito a gol de Miroslav Klose nos acréscimos definindo o resultado a favor dos Biancocelesti. Além do resultado, a participação das torcidas foi uma coisa notável. Enquanto no Brasil pouca gente vai ao estádio e em São Paulo tudo é proibido, lá tivemos um belo festival de bandeiras, sinalizadores e a festa feita pelos jogadores da Lazio junto à torcida no apito final. Uma mostra de que as bandeiras não são apenas armamentos disfarçados, mas podem sim fazer toda a diferença no espetáculo, e que sim, podemos ter duas torcidas de rivalidades históricas dividindo o estádio. Veja o vídeo:


quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Assistindo futebol no país do futebol


A Inglaterra é o país do futebol. E Londres, a capital, é uma grande cidade, que além de seus 8,3 milhões de habitantes, tem nada menos que oito clubes participando das duas principais divisões do futebol nacional: Arsenal, Chelsea, Tottenham, Fulham e Queens Park Rangers na primeira, e Crystal Palace, West Ham e Millwall na segunda.

Há alguns meses eu esperava que fosse divulgada a tabela da Premier League 2011-2012 para saber para quais partidas eu poderia tentar comprar o ingresso, ou seja, quais seriam as pelejas que se dariam no exato fim de semana que eu estaria em Londres.

Um sábado qualquer em Londres: dia de futebol

A primeira opção foi de encher os olhos: Tottenham x Arsenal, o maior clássico da cidade, em White Hart Lane. Entrei no site dos Spurs, fui atrás das opções de compra de ingresso, e fiz uma espécie de “fiel torcedor” gratuito do clube azul. Pois bem, quando os ingressos finalmente foram colocados à venda, fui informado de que o meu tipo de associado, o gratuito, não teria direito à compra de ingressos para a partida. Só de curiosidade, fui ver quanto seria o ingresso mais barato, e encontrei proibitivos £47 (aproximadamente R$130) para um adulto. O placar final da partida acabou sendo 2-1 para o Tottenham.

A segunda opção seria Fulham x Queens Park Rangers. Não gosto muito do Fulham porque é outro novo-rico do futebol, tipo Chelsea ou Manchester City, apesar de não ser tão novo nem tão rico – o clube foi comprado em 1997 pelo empresário egípcio Mohamed Al-Fayed, pai de Dodi Al-Fayed, aquele que morreu no mesmo acidente que a princesa Diana. Mesmo assim, seria a única chance de assistir a uma partida da Premier League nessa viagem, então também me associei ao Fulham e fui atrás do ingresso. Dessa vez, a minha categoria, em teoria, teria direito a ver o jogo, mas por algum motivo, talvez a confiança na acachapante vitória por 6-0 que se seguiria, os ingressos mais caros também estavam acima dos £40 (R$110), mais do que o normal, mesmo assim suficientes para me tirar da partida.

Foi aí que comecei a ir atrás da segundona, a Championship, que também tem o seu prestígio e inclusive é transmitida para o Brasil na TV fechada. A opção era Millwall x Burnley, no estádio The Den. Achei que seria interessante também porque o Millwall é a torcida mais violenta da Inglaterra, então poderia ser também uma espécie de aventura. Associação ao Millwall, abertura de venda, dessa vez com preços ainda altos, mas bem mais modestos – paguei £24 (R$66) no ingresso, comprado online e enviado pelo correio para um endereço em Londres mesmo.

Quando vi o ingresso, o primeiro mito já começou a cair: no site, você escolhe o seu assento exato, mas no ingresso, já está lá: unreserved seating, ou seja, assentos não reservados. Quer dizer, ali, como aqui, o número da cadeira para a qual você comprou o ingresso também não faz a menor diferença. Não que isso seja um grande problema.


Acabei, por minha própria culpa, só entrando no estádio por volta dos 20 minutos do primeiro tempo. Depois da verificação eletrônica do ingresso e da revista, finalmente chegamos às arquibancadas e nos deparamos com... Um monte de senhores, famílias e assentos vazios.

Foram 10.460 torcedores naquele jogo, em que a pequena torcida do Burnley estava completamente isolada dos rivais. Metade do estádio estava ocupada, em uma rodada em que a média de público entre as 11 partidas da segunda divisão inglesa foi de 16.732 torcedores, maior que a média do Brasileirão Série A, que é de 14.160.

Voltando ao público do jogo, a chamada substituição de torcidas por plateias é evidente. Além da elevação dos preços dos ingressos, que acaba excluindo a classe operária dos estádios, diversas medidas tendem a diminuir a emoção e a interação entre o torcedor e o jogo. O que mais me chamou a atenção foi o aviso abaixo, o “Safety Notice”, que proíbe que os torcedores fiquem de pé durante a partida. Levantar-se durante um lance de perigo tudo bem, porém se o pessoal tardar a se sentar, os sujeitos aí de colete laranja imediatamente mandam todo mundo de volta para o lugar. Um pouco desanimador, ainda mais na situação do jogo, em que os donos da casa perdiam por 1-0 e pressionavam pelo empate bem no gol onde nós estávamos.


Outro mito que caiu para mim é de que na Inglaterra as torcidas cantam o tempo todo, são mais intensas, etc etc etc. Não sei se isso é fruto da elitização do esporte, mas em nenhum momento o estádio inteiro cantou apoiando o time. Em lances de emoção, uma parte do público entoava o “no one likes us we don’t care” característico dos Lions, mas que se dissipava rapidamente.

Ver a partida de pertinho, ali na altura do gramado, realmente é o maior barato. Porém esse jogo foi um tanto fraco tecnicamente. Apesar da pressão do Milwall no segundo tempo, não chegou a ser um massacre, o goleiro do Burnley não precisou fazer mais de um par de grandes defesas, e os visitantes levaram os três pontos e comemoraram com a torcida.

Saída do estádio muito tranquila. Todos caminhando calmamente até os pontos de ônibus e as estações de metrô, um policiamento numeroso, mas sem cavalos ou grandes armamentos, e foi isso. Mais um jogo de futebol que terminou, como se nada tivesse acontecido.

Na soma geral, claro que a experiência de assistir a um jogo no estádio em um país sobre o qual se diz que é tudo super organizado é uma experiência valiosa. Com certeza temos muito a aprender em relação à forma de se vender e distribuir os ingressos, a estádios acessíveis, tranquilos e principalmente sem alambrados. Mas não deixa de incomodar o fato de a ordem no futebol inglês ter se estabelecido tanto e de tal forma, que a ida ao estádio para ver o futebol tenha deixado de ser uma experiência inesquecível, e completamente incompatível com a palavra aventura. Talvez o jogo em questão não tenha ajudado, mas mesmo assim, nesse quesito ainda me parece que a América do Sul e outras partes da Europa (Alemanha por exemplo) estão em situação bem melhor que os ingleses.